O Amarelinho

O Amarelinho bebeu um trago e disse:
Quem foi que disse que bandeira que tem amarelo é feia?
Quem foi que disse que amarelo não é macho?
Quem foi que disse que amarelo não é bamba?
Mulatas, louras, morenas
todas gritavam no meio da dança:
Viva o Brasil!
Viva o Brasil!
Viva o Amarelinho!

Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados

Bahia de Todos os Santos (e de quase todos os pecados)
casas trepadas umas por cima das outras
casas, sobrados, igrejas, como gente se espremendo pra sair num retrato de revista ou jornal
(vaidade das vaidades! diz o Eclesiastes)
igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras)
toda a Bahia é uma maternal cidade gorda
como se dos ventres empinados dos seus montes
dos quais saíram tantas cidades do Brasil
inda outras estivessem para sair
ar mole oleoso
cheiro de comida
cheiro de incenso
cheiro de mulata
bafos quentes de sacristias e cozinhas
panelas fervendo
temperos ardendo
o Santíssimo Sacramento se elevando
mulheres parindo
cheiro de alfazema
remédios contra sífilis
letreiros como este:
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
(Para sempre! Amém!)
automóveis a 30$ a hora
e um ford todo osso sobe qualquer ladeira
saltando pulando tilintando
pra depois escorrer sobre o asfalto novo
que branqueja como dentadura postiça em terra encarnada
(a terra encarnada de 1500)
gente da Bahia! preta, parda, roxa, morena
cor dos bons jacarandás de engenho do Brasil
(madeira que cupim não rói)
sem rostos cor de fiambre
nem corpos cor de peru frio
Bahia de cores quentes, carnes morenas, gostos picantes
eu detesto teus oradores, Bahia de Todos os Santos
teus ruisbarbosas, teus otaviosmangabeiras
mas gosto das tuas iaiás, tuas mulatas, teus angus
tabuleiros, flor de papel, candeeirinhos,
tudo à sombra das tuas igrejas
todas cheias de anjinhos bochechudos
sãojões sãojosés meninozinhosdeus
e com senhoras gordas se confessando a frades mais magros do que eu
O padre reprimido que há em mim
se exalta diante de ti Bahia
e perdoa tuas superstições
teu comércio de medidas de Nossa Senhora e de Nossossenhores do Bonfim
e vê no ventre dos teus montes e das tuas mulheres
conservadores da fé uma vez entregue aos santos
multiplicadores de cidades cristãs e de criaturas de Deus
Bahia de Todos os Santos
Salvador
São Salvador
Bahia
Negras velhas da Bahia
vendendo mingau angu acarajé
Negras velhas de xale encarnado
peitos caídos
mães das mulatas mais belas dos Brasis
mulatas de gordo peito em bico como pra dar de mamar a todos os meninos do Brasil.
Mulatas de mãos quase de anjos
mãos agradando ioiôs
criando grandes sinhôs quase iguais aos do Império
penteando iaiás
dando cafuné nas sinhás
enfeitando tabuleiros cabelos santos anjos
lavando o chão de Nosso Senhor do Bonfim
pés dançando nus nas chinelas sem meia
cabeções enfeitados de rendas
estrelas marinhas de prata
tetéias de ouro
balangandãs
presentes de português
óleo de coco
azeite-de-dendê
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
Tomé de Sousa
Tomés de Sousa
padres, negros, caboclos
Mulatas quadrarunas octorunas
a Primeira Missa
os malês
índias nuas
vergonhas raspadas
candomblés santidades heresias sodomias
quase todos os pecados
ranger de camas-de-vento
corpos ardendo suando de gozo
Todos os Santos
missa das seis
comunhão
gênios de Sergipe
bacharéis de pince-nez
literatos que lêem Menotti del Picchia e Mário Pinto Serpa
mulatos de fala fina
muleques
capoeiras feiticeiras
chapéus-do-chile
Rua Chile
viva J. J. Seabra morra J. J. Seabra
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
um dia voltarei com vagar ao teu seio moreno brasileiro
às tuas igrejas onde pregou Vieira moreno hoje cheias de frades ruivos e bons
aos teus tabuleiros escancarados em x (êsse x é o futuro do Brasil)
a tuas casas a teus sobrados cheirando a incenso comida alfazema cacau.

Barcos Portuguêses

Os barcos de proas altas
reviradas e decoradas de figuras de cor
são belos porque os pescadores
querem que sejam assim belos e arcaicos.

Há pescadores aqui que não têm casas.
Suas casas são os barcos,
dormem nos barcos,
cozinham dentro deles suas caldeiradas,
confabulam com deuses, sereias e mães-d’águas.

É a do Norte que vem

Cariocas e gaúchas
Belezas brasileiríssimas
Como também as paulistas
Abram alas batam palmas
Para a do Norte que vem
Toda de branco vestida
Muito sinhá no olhar
Muito moderna no andar.
O Norte não é só vaqueiro
Nem só Joaquim Nabuco
Não é só casa de engenho
Nem só Delmiro Gouveia
É também essa mistura
De uma graça de outro tempo
Com o moço Brasil de hoje
Que leva ao Sul leva ao Centro
A brasileira do Norte.

Em Heidelberg: pensando na morte

Penso no alemão que chamou a Morte de
“doce Morte” e disse
” – Vem, doce Morte”.
Eu não chamo a Morte de doce
Sei que Ela é amarga
(O amargor das raízes.)
O que eu digo à amarga Morte é
que venha docemente.

Em Salamanca: Morte e esperança

Salamanca
mestra de Don Miguel
me ensina a morrer
sem a certeza de perecer.

História Social: Mercados de Escravos

Entre negros esverdeados
pelas doenças, se exibiam
os corpos de bela plástica
dos animais cujos dentes
de tão alvos pareciam
de dentadura postiça.
Negras lustrosas e moças,
um femeaço de boas
formas, lotes de molecas
passivamente deixando
se apalpar por compradores,
ante as exigências, moles,
saltando, mostrando a língua,
estendendo o pulso como
bonecos desses que guincham.
Havia ainda os moleques
franzinos. Nada valiam
porque se davam de quebra
aos compradores de “lotes”.

Jangada Triste

Ao longe, mui longe, no horizonte,
além, muito além daquele monte,
como ave que voa desdenhada,
flutua tristemente uma jangada.

Nos zangados soluços do oceano,
quase desaparece o canto humano
de quem no mar e céu inda confia
porque em terra tudo lhe é melancolia.

Isso de terra firme e mar traiçoeiro
nem sempre é certo para o jangadeiro
mais preso ao fiel sal que à incerta areia.

Mistura ao grande azul as suas mágoas
e encontra no vaivém das verdes águas
consôlo às negras dores cá da terra.

Mal-assombrados nos Rios

Só o mal-assombrado
povoa ainda de sonhos românticos
as águas imundas dos rios do Nordeste,
prostituídos pelo açúcar.
Mal-assombrado de estudante assassinado
que o cadáver aparece boiando
por cima das águas
ainda de fraque
a flor na botoeira.
Mal-assombrado do menino louro
afogado que o siri não roeu
e o anjinho aparece inteiro.
Mal-assombrado da moça morena
que se atirou no rio doida
de paixão e os seus cabelos
se tornaram verdes como o das iaras

A Menina e a Casa

Minha Sonia
Minha Sonia
Minha Soninha Maria
Nesta casa
Neste mato
Quero ver Sonia crescer.
A casa é cheia de livro
O mato é cheio de bicho
Os livros contam histórias
Os bichos contam também
Mesmo as mesas, mesmo as plantas
Os retratos dos vovós
As panelas da cozinha
Mangueiras e coisas velhas
Têm boca falam também
Dizem segredos bonitos
Que os meninos
Que os poetas
Ouvem ninguém sabe como.
Quero ver Sonia Maria
Conversando com as galinhas
Com o gato
Com os passarinhos
Com a cadeira de balanço
Com o rio que passa perto
Preguiçoso dando voltas
Sem pressa de ir pro mar
Com as estrelas com as palmeiras
Com as cigarras dos bambus
Com os pingos d’água de chuva
E mesmo com os cururus
Com os livros cheios de histórias
Com os almanaques
Com os quadros
E com a melhor das mamães.

Menino de Engenho

O menino de engenho era decerto
criatura menos sacrificada à gravidade
de trajo e vida que o nascido nas cidades.
Nas almanjarras,
com os moleques
seus camaradas
leva-pancadas
brincava de carrossel
um carrossel
a que servia
de caixa de música
e cantiga do tangedor.

Montava a cavalo
saía pelo mato
com o moleque
a pegar curiós.

No tempo de cana madura
chupava com delícia os rolêtes
que lhe torneavam a faca
os negros do engenho.

Gostava de fazer navegar
na água das levadas
em navios de papel
moscas e grilos
personagens dos romances de aventura
que inventava
antes de conhecer negras nuas
e viver seus primeiros romances de amor.

Menino de Luto

Foi quase um, Brasil sem menino
o dos nossos avós e bisavós.
Aos oito anos o menino
dizia de cor os nomes
das capitais da Europa,
dos três inimigos da alma
somava, multiplicava,
diminuía, dividia.
Estudava Gramática
Latina, Retórica
e Francês. Só saía
de colarinho alto,
sobrecasaca escura,
chapéu duro, gravata
preta e em passo de enterro.
Só saía de luto
da própria, meninice.

Nordeste da Cana-de-Açucar

Nordeste de árvores gordas,
de gente vagarosa
e às vezes arredondada quase em sanchos-panças pelo mel de engenho,
pelo peixe cozido com pirão,
pelo trabalho parado e sempre o mesmo,
pela opilação, pela aguardente,
pela garapa de cana, pelo feijão
de coco, pelos vermes,
pela erisipela,
pelo ócio, pelas doenças que fazem a pessoa
inchar, pelo próprio mal de comer a terra.

Nordeste onde nunca deixa de haver uma
mancha d’água:
um avanço de mar, rio ou riacho,
um esverdeado de lagoa.
Onde a água faz da terra mais mole o que quer:
inventa ilhas,
desmancha istmos
e cabos, altera a seu gosto
a geografia convencional dos compêndios.
Nordeste com a cal
das casas de telha
tirada das pedras do mar,
com uma população numerosa vivendo
de peixe, de marisco e caranguejo.

Nordeste oleoso,
onde noite de lua parece escorrer
um óleo gordo das coisas e pessoas,
da terra, do cabelo preto das mulatas,
das árvores lambuzadas de resinas,
do corpo pardo dos homens que trabalham
dentro do mar e dos rios,
na bagaceira dos engenhos,
no Cais do Apolo, nos trapiches.

Nordeste de terra gorda e de ar oleoso,
Nordeste da cana-de-açúcar,
da casa-grande dos engenhos,
dos sobrados de azulejo,
dos mucambos de palha de coqueiro
ou de coberta de capim-açu.
Nordeste da primeira fábrica brasileira de açúcar,
e talvez da primeira casa de pedra e cal,
da primeira igreja no Brasil,
da primeira mulher portuguesa criando menino
e fazendo doce em terra americana,
do Palmares de Zumbi.

Nordeste do massapê, da argila, do húmus gorduroso.
A terra aqui é pegajenta e melada,
agarra-se aos homens com modos de garanhona,
mas ao mesmo tempo parece
sentir gosto em ser pisada e ferida pelos pés
de gente, pelas patas
dos bois e dos cavalos.
Deixa-se docemente marcar até
pelo pé
de um menino
que corra
empinando um papagaio. Até
pelas rodas de um cabriolé
velho que vá
aos solavancos
de um engenho
de fogo morto
a uma estação
da Great-Western.

O Outro Brasil que Vem Aí

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.

Pés Bailarinos

Pés africanos desde o Senegal,
mesmo quando sujos e de trabalhadores rurais,
aristocráticos e superiormente belos.
Pés que fazem de quase todo africano um eterno bailarino
no regozijo,
na dor,
no sexo,
no temor,
na fé, bailando,
servindo-se do corpo inteiro,
mas principalmente dos pés.

Os pés do europeu são, de ordinário, só para caminhar.
Os do europeu rico quase não caminham
apenas sustentam ou completam o corpo.
Os do africano, e não apenas os da africana,
até caminhando parecem dançar.
Lembrança de Baudelaire:
Même quand elle marche on dirait qu’elle danse.

Pés bailarinos
ao lado dos quais
os de lordes ingleses,
comendadores italianos,
membros da Academia Francesa,
generais alemães,
milicianos americanos,
talvez se achatassem todos em caricaturas,
se fossem submetidos a um exame de antropologia estética.

Sagres

Sagres
Paisagem terrivelmente magra.
Não se compreende gente comodista nesta ponta de terra áspera
(ela própria cheia de ossos, cheia de espinhos).
Só homens como o Infante
Ascetas doutos quase bruxos com suas capas negras
Árabes
Judeus
Matemáticos
Astrólogos
Geógrafos
olhando o mar com olhos de feiticeiros
ouvindo os ventos com ouvidos de tísicos ou de médicos
estudando os céus
emendando mapas
adivinhando terras
profetizando Índias, Áfricas e Brasis.

Silêncio em Apipucos

As mangueiras
o telhado velho
o pátio branco
as sombras da tarde cansada
até o fantasma da judia rica
tudo esta à espera do romance começado

um dia sobre os tijolos soltos
a cadeira de balanço será o principal ruído
as mangueiras
o telhado
o pátio
as sombras
o fantasma da moça
tudo ouvirá em silêncio o ruído pequeno.

Vem menino desejado

Vem menino desejado
Vem dominar estas terras
Estas águas, estas matas
Estas mangueiras sinhás
Estes velhos cajueiros
Estas jaqueiras iaiás
Vem ser Senhor desta casa
Vem ser dono destes livros
Vem ver se são mesmo fortes
Estes móveis já avós.

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